O menino Caju e o sabiá-laranjeira

Houve um tempo em que os sabiás-laranjeiras falavam. Isso mesmo: os sabiás-laranjeiras falavam! Pelo menos, é o que dizia Dona Francisca de Oliveira, avó do Juquinha, ótima doceira e louca pra contar histórias enquanto lidava com as panelas. Juquinha era um grande amigo e vizinho do Caju e os dois moravam ao lado do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Um dia em que Caju estava na casa do amigo – o que não era novidade, pois viviam um na casa do outro –, Dona Francisca contou uma história mais ou menos assim: um homem tinha acabado de comprar um anel para pedir a namorada em casamento. O anel tinha custado uma nota, as economias de meses e meses de trabalho. Quando, chegando em casa, pôs a mão no bolso do paletó, o rapaz descobriu que o tinha perdido e começou a chorar de desespero.

“Agora, perdi o anel e vou perder também a namorada, pois sem ele não posso pedi-la em casamento!”, gritava com o rosto enfiado no travesseiro, que ficou rapidamente ensopado de lágrimas.

Entre os conhecidos do homem, havia um sabiá-laranjeira. O pássaro pousava todos os dias na janela da cozinha e, antes de ir ao trabalho, o homem dividia com ele as migalhas de pão do café-da-manhã. Dessa vez, o sabiá-laranjeira, que devia estar por perto e ouviu os gritos do amigo, pousou na janela do quarto. Não conhecia muitas palavras, mas sabia o suficiente de gramática para perguntar:

‒ Por que você está chorando, ensopando a cama de lágrimas e berrando como uma araponga?

O homem ergueu a cabeça do travesseiro molhado, viu o passarinho de barriga cor-de-laranja falando entre pios e palavras e respondeu:

‒ Perdi o anel de noivado. Como vou pedir minha namorada em casamento? Não tenho mais um tostão! Foi-se tudo. Inclusive a namorada…

Dito isso, o rapaz afundou o rosto no travesseiro novamente, que já não conseguia absorver mais lágrimas.

O sabiá-laranjeira ficou perplexo.

‒ Por que foi-se a namorada? Onde é que ela foi? ‒ perguntou.

‒ Porque, sem anel, não posso pedi-la em casamento ‒ respondeu o homem.

 Ainda surpreso, o passarinho disse:

‒ Nós, os sabiás-laranjeiras, nos casamos mesmo sem anel. Por que você não pede a mãe dela mesmo assim? Se ela gostar de você de verdade, vai aceitar.

‒ A mãe?! ‒ exclamou o homem. ‒ Acho que você quer dizer a mão… Ah, e a vergonha? ‒ disse o rapaz e continuou gritando ‒ Não posso, não posso, não posso!!

O sabiá-laranjeira pensou com as suas penas: “Esses seres humanos são mesmo esquisitos, tornam complicado o que deveria ser simples…”

Mas ficou com pena do homem e, piando muito, bateu as asas e se foi. Meia-hora depois, voltou com um pacotinho no bico e chamou o rapaz, que ainda estava com o rosto enfiado no travesseiro. Era o anel que ele tinha perdido!

A essas alturas, Caju e Juquinha perguntaram para Dona Francisca:

‒ Como é que o passarinho achou o anel?

‒ Ah, isso eu num sei… ‒ disse ela.

De qualquer forma, o rapaz ficou tão feliz, que começou a pular pelo quarto e quase despencou da janela quando o sabiá-laranjeira lhe entregou o embrulhinho. Em seguida, foi para a cozinha à procura de migalhas de pão para dar ao amigo.

Dona Francisca parou nesse ponto e os dois amiguinhos começaram a fazer mais perguntas:

‒ Ele pediu a namorada em casamento?

‒ Ah, isso eu num sei… 

‒ O passarinho foi convidado para o casamento?

‒ Ah, isso eu também num sei…

‒ Onde foi que isso aconteceu? Quando isso aconteceu?

Dona Francisca respondia sempre:

‒ Ah, isso eu num sei…

E, para pôr fim nessa perguntaiada toda, a avó do Juquinha acabou exclamando:

‒ Agora, só falta vocês me perguntarem o número do sapato dele! Ou se o passarinho era casado e tinha filhos e netos!

Caju voltou para casa com essa história na cabeça, foi dormir com essa história na cabeça e… acordou com essa história na cabeça. Já pensou ter um amigo passarinho que fala? E que, ainda por cima, acha as coisas que você perde? Nossa, ele me traria de volta tanta coisa! O cordão do pé esquerdo do tênis… o apontador de lápis… o olho do bicho de pelúcia… o caderno de inglês… a cabeça do Homem-Aranha… a caixinha de clipes… a capa do Super-Homem… o caleidoscópio… o braço direito do Batman… a revistinha da Mônica… as três bolinhas de gude que estão faltando… a escada magirus do caminhão de bombeiro… a hélice do helicóptero… a dama de espadas e o dez de copas do baralho… o gancho do Capitão Gancho… o botão do colarinho da camisa amarela…

É claro que, para achar e transportar tudo isso, Caju precisaria mesmo é de um exército de sabiás-laranjeiras!

Mais tarde, depois da escola, foi à casa do Juquinha. Só que o amigo não estava lá. Assim, decidiu dar uma volta no Parque Ibirapuera. Naqueles tempos, havia pouco trânsito no bairro. A grande avenida que, agora, passa bem ao lado, ainda nem existia, era apenas uma rua estreita. Caju se sentou entre os jacarandás mimosos que beiram a lagoa e ficou vendo as nuvens passarem. Cada forma interessante! Não eram nuvens de chuva não, mas algumas eram bem grandes, parecidas com montanhas de algodão.

Foi quando ouviu um estrondo não muito longe dali. Uma árvore tinha acabado de cair. Logo em seguida, um passarinho se aproximou dele, piando com desespero.

‒ O que foi? ‒ perguntou Caju.

Mas o passarinho só piava e os seus pios eram como gritos agudos.

‒ O que aconteceu? ‒ perguntou novamente, esperando que o passarinho falasse.

Era um sabiá-laranjeira. Estava agitadérrimo. Saltitava e berrava, mas nada de falar! E Caju não conseguia entender o que queria. Então, levantou-se e foi, com prudência, ver o estrago que a árvore caída tinha feito.

Entre galhos quebrados e folhas rasgadas, viu um ninho destroçado. Será que era o ninho do sabiá-laranjeira, o qual, agora, estava gritando a certa distância? Caju não viu ovos – mais tarde, aprenderia que os ovos de sabiá-laranjeira são azuizinhos e rajados de pintas marrons. Não viu filhotes, não viu nada que pudesse fazer pensar que havia passarinhos machucados no local. Porém,  o passarinho continuava a piar com desespero, olhando para ele; e, toda vez que Caju tentava se aproximar, o sabiá-laranjeira se afastava.

Tentou várias vezes:

‒ O que você quer? O que posso fazer?

Mas o passarinho não falou.

Estava entardecendo. Caju resolveu voltar para casa antes que sua mãe começasse a se preocupar. Nesse dia, foi para a cama pensando no que tinha acontecido no parque. E foi com a imagem do sabiá-laranjeira gritando coisas que ele não podia entender que acordou no dia seguinte.

O tempo foi passando e Caju foi crescendo. Entretanto, nem a história da Dona Francisca, nem o passarinho do parque saíram da sua cabeça. Ficaram empoleirados no cucuruto dele. De vez em quando, apareciam em sonho, sem ele pedir; outras vezes, era ele próprio que, acordado, pensava sobre o assunto.

Até o dia em que Caju teve que decidir o que fazer na vida. Decidiu ser engenheiro? Não. Jogador de futebol? Não. Comerciante? Não. Cozinheiro, médico, camioneiro? Também não.

Então, o que escolheu? Ainda não advinhou? Caju resolveu estudar as aves. Queria entender a linguagem dos pássaros para poder ajudá-los. A vida dos pássaros nas cidades grandes não é nada fácil e Caju queria protegê-los. Hoje em dia, trabalha como ornitólogo no departamento de parques e áreas verdes da cidade. Provavelmente, você já o viu por aí. Só não sabe que é ele…

© Roberto Carvalho de Magalhães

Complementos:

Você sabe como se chama o estudo dos pássaros?

Ornitologia. É uma palavra de origem grega, composta pelas palavras gregas “ornithos” (pássaro) e “logos” (estudo ou ciência). Significa, portanto, ciência ou estudo das aves.

Você conhece o sabiá-laranjeira?

É um pássaro da América do Sul, da família Turdidae, que dizem ter vindo da Europa 20 milhões de anos atrás. É uma ave bastante comum no Brasil e, desde 1966, é o pássaro símbolo do Estado de São Paulo e, a partir de 2002, também do Brasil. Ele tem dorso marrom acinzentado e barriga cor de laranja – por isso o nome “laranjeira”. Já a palavra “sabiá” saiu da língua tupi, na qual significa “pintado”. Portanto, sabiá-laranjeira significa “pintado de laranja”.

Você sabe onde fica o Parque Ibirapuera?

Fica na cidade de São Paulo. É um dos maiores parque urbanos – ou seja, dentro de uma cidade – do Brasil. Foi inaugurado em 1954 e nele se encontram espécies de árvores nativas e exóticas, cerca de 120 espécies de aves, vários museus e um planetário.

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