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A farra das concessões dos parques: começo do fim?

por Roberto Carvalho de Magalhães

Certas coisas não precisam ser vividas concretamente para se saber o quanto ruim podem ser. Estava claro que a concessão de parques públicos para a iniciativa privada com fim de lucre iria dar mal. É assim com todos os serviços públicos essenciais. A SABESP, a ENEL estão aí para demonstrar isso. É quase uma fórmula matemática: a eficiência diminui e o preço do serviço sobe para aumentar o lucro (ou dividendos dos acionistas). Os intermináveis acidentes e falhas da SABESP e os apagões da ENEL depois da privatização não nos deixam mentir.

Parque Estadual da Cantareira, SP.

A concessão de parques não foge à regra. Não estamos falando de parques de diversão. Há sempre muita confusão sobre o assunto e os desinformados acham que os parques naturais devem cumprir essa função, o que é um grande mal entendido. Estamos falando de parques em que a natureza é a atração – com verde a ser preservado e incrementado; com fauna a ser protegida; enfim, os oásis naturais tão importantes para a saúde física e mental da população, que, em uma cidade como São Paulo, são sempre insuficientes em número e tamanho.

Pois bem, a farra da privatização atingiu também os parques do estado e da cidade de São Paulo. O Ibirapuera e o Parque da Água Branca foram inundados de propaganda e comércio – que são exatamento o que as pessoas deveriam esquecer quando entram em um parque para estar em contato com a natureza. Ainda que algumas regras tenham sido preservadas, não raras são as infrações, justificadas por interpretações dúbias dos contratos – o que leva a litígios e. muitas vezes, multas irrelevantes. A população paga o pato: áreas tornadas inacessíveis para eventos privados ou com cobrança; negligência da preservação das áreas verdes e até mesmo invasão de áreas verdes por edifícios e calçamentos impermeáveis; alto custo dos serviços; comércio e propaganda por todos os lados. Ou seja, exatamente o contrário do que deveria ser um parque público. Isso, logicamente, para encher os bolsos da concessionária e dos seus acionistas.

De alguns dias atrás é a notícia de que uma dessas concessionárias está negociando com o governo o fim da concessão de dois parques estaduais na cidade de São Paulo: o Cantareira e o Horto Florestal. Impedida pelos limites estabelecidos no contrato – ou seja, não podendo encher esses parques com a parafernália comercial que lhe permitiria alcançar os lucros desejados, desnaturando os próprios parques – a concessionária lava as mãos.

Veja aqui a notícia: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/07/02/urbia-vai-devolver-concessao-dos-parques-cantareira-e-horto-florestal-governo-de-sp-estuda-nova-licitacao.ghtml

Parque público é para o bem estar – acessível – da população e não para encher os bolsos de empresas gananciosas a qualquer custo. Desde que se começou a falar de “privatização” – palavra problemática, pois os parques são e devem permanecer públicos -, defendemos que o modelo ideal seria o da gestão compartilhada através de uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). A farra das concessões com fim de lucro já provocou muitos danos ao parques municipais e estaduais e insatisfação nos usuários. Agora, a rachadura parece aumentar. Tudo isso precisa ser revisto urgentemente. Quem sabe com um governo e uma prefeitura mais humanistas e menos mercantilistas.

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