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Passeio com música no parque XII

por Roberto Carvalho de Magalhães
Descubra o encanto de um concerto para gaita de boca e orquestra do tempo em que o Parque Ibirapuera foi criado. E por que não o escutar – com fones de ouvido, obviamente – durante uma caminhada ou um momento de contemplação no parque?
Homem contemplando a lagoa do Parque do Ibirapuera. Foto: Carlos Eduardo Godoy.

Homem contemplando a lagoa do Parque do Ibirapuera. Foto: Carlos Eduardo Godoy.

Acontece, na histόria da música, que instrumentos negligenciados em certas épocas, tornem-se a coqueluche de outras. E, ainda, que novos instrumentos, inicialmente utilizados no âmbito da música popular, “pulem a cerca” e entrem no rol dos solistas da música erudita.

A gaita de boca – ou harmônica – ilustra perfeitamente esse processo. O instrumento aparece inicialmente na Áustria, no começo do século XIX, onde é vendido já na década de 1820. Algumas décadas mais tarde, terá início a sua produção em série, por Matthias Hohner, um fabricante de relόgios alemão. Desde então, a gaita não parou de evoluir. Em 1924, por exemplo, os herdeiros de Hohner lançaram a harmônica cromática. Nasce, também, a harmônica baixo e novos modelos continuam a surgir até hoje.

Um dos motivos da popularidade da harmônica é que se trata de um instrumento de bolso, facilmente transportável. Nos seus primόrdios, era usada na Europa para se tocar música folclόrica. A partir da sua produção em série e comercialização em grande escala, o instrumento se difundiu enormemente nos Estados Unidos. Conta-se que Abraham Lincoln, presidente dos EUA de 1861 a 1865, ano em que foi assassinado, carregava sempre uma gaita no bolso. Era, também, o instrumento perfeito para descontrair e consolar os soldados nos frontes da Guerra Civil.

O compositor Heitor Villa-Lobos com instrumentos da música popular, que ele introduziria sem cerimônias nas suas orquestrações.

O compositor Heitor Villa-Lobos com instrumentos da música popular, que ele introduziria sem cerimônias nas suas orquestrações. A gaita de boca torna-se até mesmo solista.

Logo, a gaita se transformaria no instrumento do blues e da country music, estilos com os quais é identificada até hoje. A partir dos anos de 1940, alguns virtuosos da gaita de boca, entre os quais Larry Adler e John Sebastian, encomendam a vários compositores americanos e estrangeiros uma série de concertos e composições para harmônica e orquestra. Nascem, assim, entre outros, a Suite Anglaise (1942), do compositor francês Darius Milhaud, o Concerto para Harmônica opus 86 (1953) do russo Alexander Tcherepnin e o Concerto para Harmônica e Orquestra (1955) de… Heitor Villa-Lobos!

Encomendado por John Sebastian (1914-1980), o concerto de Villa-Lobos teve sua estreia somente em outubro de 1959, em Israel, com o prόprio John Sebastian na gaita. Vinte dias mais tarde, Villa-Lobos faleceria no Rio de Janeiro, sem ter ouvido a sua obra executada com orquestra.

Escolhemos esse concerto para este novo “passeio” no parque não sό pela sua beleza e porque foi composto nos anos da criação do Parque Ibirapuera, mas também por causa da sua raridade e porque exemplifica a versatilidade do compositor, que não hesitava em compor para instrumentos não tradicionalmente utilizados na música erudita. A versão que propomos aqui é a do gaitista americano Robert Bonfiglio com a New York Chamber Symphony, de 1989.

Se você nunca ouviu esse concerto, boa descoberta! Se já o conhece, boa audição! Em todo caso, bom passeio, caminhada ou corrida no Parque Ibirapuera com a música de Villa-Lobos!

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