Plantando novas árvores por aí

Não dá mais para esperar. Preservar o verde, plantar, encher os interstícios da trama urbana com árvores e plantas – especialmente, as espécies da Mata Atlântica e do cerrado que aqui moravam antes do desenvolvimento descontrolado e do excesso de cimento e asfalto – está tomando a forma de um verdadeiro movimento social. Um movimento que reúne voluntários, doadores, especialistas e leigos. Todos reunidos em nome da paixão pela flora e da vontade de fazer algo para melhorar a qualidade de vida na cidade. Acolhemos com grande prazer na Revista do Ibirapuera a história de uma das iniciativas pioneiras desse movimento, o Novas Árvores por Aí, no relato do seu criador, Nik Sabey.

Plantio de ipês roxos e amarelos num recente mutirão realizado no Parque Ibirapuera pelo Parque Ibirapuera Conservação. Nik Sabey (de camiseta branca) dando uma força. Foto: Rodrigo Ferrara.

Tudo começou há milhares de gerações atrás, na época dos nossos longíquos antepassandos. Lá no começo mesmo, onde a natureza olhou pra nós e disse: “estes, assim como os outros comedores de frutas, engolidores de sementes, catadores de alimento, assim como os quatis, antas, macacos, esquilos, aves e outros, serão plantadores de árvores”. Foi nesse momento que ganhamos nossa tarefa mestra. Ganhamos um presente que nos dava um motivo pra existir.

Quando alguém nos perguntava qual é o sentido da tua vida, pra que você serve, pra que você existe, que raios é tua missão neste planeta, o que te faz feliz, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, estufávamos o peito e, como crianças que receberam uma missão de pais que admiram como heróis, respondíamos:

     − Nós plantamos árvores!

Essa resposta nos fazia deitar com a cabeça na pedra (faz tempo isso…) e dar aquela risadinha de satisfação, lembrando que o dia tinha sido de muitas realizações. Sim, tínhamos plantado muitas árvores.

O tempo passou e nossa espécie chegou na adolescência. Como todo bom adolescente, resolvemos que essa missão era uma grande pataquada. Que plantar que nada! Melhor é construir. Melhor é ser grande, é ser melhor que o melhor dos melhores e sair na capa da revista. É cortar esse monte de árvore e fazer móveis lindos, fazer fogueira, fazer papel. Que paca, anta, macaco que nada! Eu sou mais eu. Esses aí nem falam, nem escrevem, nem constroem. Eu sou mais eu. E, em meio a esse ego caótico, fomos  derrubando uma a uma as nossa maiores parceiras. Aquelas que nos deram abrigo, sombra, alimento, ar, beleza por milênios…

Novas árvores por aí

Talvez a adolescência esteja passando. Talvez um aqui outro alí estejam com aquela pontinha de vergonha de terem sido tão ingratos, arrogantes, insolentes. No meu caso, nasci como se essa missão de plantar tivesse sido recém entregue. Nasci quase da terra e com muita vontade de plantar. Plantar freneticamente pelo prazer de ver crescer, multiplicar, florescer, frutificar. Nasci num bairro com bastante espaço, com muita terra disponível e isso ajuda, claro.

Nik Sabey “saindo do buraco”, meados de 1984. Foto: Sonia Vessoni.

Lá pelos 14 anos, mudei para um apartamento na cidade e, por maior que a varanda fosse, nunca caberiam minhas mudas. Mesmo assim, ela era meu jardim. Por anos, os limites foram aqueles da varanda ou das varandas por onde passei. Um dia, percebi que essas mudas estavam ficando cada vez maiores, era muita muda, praticamente não tinha mais por onde passar. Resolvi, então, que as plantaria na cidade. Nas calçadas, praças, canteiros. Achei que seria preso, xingado, sofreria bullying e, por isso, saia pra plantar sempre no fim do dia.

Mudas na varanda. Foto: arquivo pessoal Nik Sabey.

Depois de um tempo plantando, resolvi que procuraria gente que apoiasse essa ideia ou que também estivesse fazendo o mesmo. De forma tímida, criei a página no Facebook para postar os plantios. Queria achar pessoas e, quem sabe, motivar outros a plantar novas árvores por aí. E não é que achei? Claro que achei! Muita gente está sentindo aquele final de adolescência, aquela vontade de assumir que tem uma vocação, que tem uma satisfação inexplicável em plantar. Algo lá no fundo do DNA chamando.

Muitos não sabem como, não sabem quais árvores plantar, não sabem cavar nem nada. Mas isso não importa. No que for possível, a gente vai ajudar. O que importa é fazer as pazes enquanto há tempo, importa errar até acertar e jamais parar de plantar novas árvores por aí.

Hoje, já temos alguns lindos plantios no currículo, como as “Florestas de Bolso”: uma com mais de 1.200 árvores, plantadas em duas etapas no Parque Cândido Portinari; e outra no Parque Belém, com 550 mudas. Ambas em parceria com o botânico Ricardo Cardim. Ou ações de resgate de espécies, como o palmital de Jussaras, que plantamos na nascente do riacho Iquiririm, na Vila Indiana (Butantã).

Plantio da floresta de bolso no Parque Cândido Portinari, 31/07/2016 Foto: Alexandre C. de Lucca (drone).

Plantio da primeira floresta de bolso (Av. Helio Pellegrino), 21/03/2016. Foto: Caio Camargo.

Como funciona

Basicamente, todas as novidades são postas na página do Facebook. Quando marcamos um plantio, é também pelo Facebook que criamos o evento e chamamos as pessoas para participar. Ou seja, basta seguir a página do Novas Árvores por Aí  para saber quando e onde estaremos plantando. A regra básica do plantio é plantar, mas é legal contar que já o fizemos em diversos formatos. Já plantamos mudas doadas por empresas, pessoas, prefeituras. Já produzimos mudas para plantar. Plantamos nas calçadas, nos parques, nas praças, nas reservas, nas nascentes… e sempre estamos buscando formas novas, parcerias, oficinas para as crianças, formas de deixar o evento do plantio gostoso com algo de comer e beber. E por aí vai.

Afinal, plantar é preciso. E juntos plantamos muito mais.

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