A ausência de educação ecológica nas escolas – e em casa – desde a primeira infância é um problema enorme da sociedade, assim como a falta de contato com a natureza nas cidades grandes e médias, onde se concentra a maior parte da população mundial. Propaga-se a ideia de que a vida natural se opõe ao desenvolvimento humano, de que a natureza é antitética à vida humana; e, dessa forma, justifica-se a sua contínua destruição.
Moro numa área extremamente arborizada e entremeada de bosques. Mesmo circundado pelo verde abundante, considero um sacrilégio a derrubada de uma árvore. Sei quanto tempo e esforço da natureza são necessários para que uma árvore se desenvolva, atinja a maturidade e nos brinde com a sua sombra, com a sua beleza e, como se diz modernamente e de forma utilitarista, com os seus “serviços ecológicos” – ou seja, retenção de CO2, produção de oxigênio, controle da temperatura e da umidade do ar, combate à erosão do solo, além de fornecerem o habitat para muitos animais e insetos, estes também importantes para o equilíbrio da vida no planeta. A única circunstância em que me conformo com a derrubada de uma árvore é quando ela está irremediável e indiscutivelmente doente e pode cair e causar danos graves às pessoas e às casas.
Nenhuma outra justificação me convence. Ah, é preciso derrubar as árvores para se construir novas casas! Mentira. Mentira de governos e construtores, para justificar a ganância das empreiteiras. Há casas de sobra no mundo, desocupadas, em estado aceitável ou precário, que poderiam muito bem ser devidamente recuperadas e reutilizadas. Estima-se que, somente na capital paulista, haja 590.000 imóveis particulares desocupados, entre casas, apartamentos e prédios comerciais. 590 mil! E estamos falando somente de uma cidade. Isso demonstra que o argumento da falta de habitação é uma grande lorota.
Outro argumento risível é o de que é preciso derrubar árvores para se instalar painéis de energia solar. A energia gerada pelos painéis solares é relativamente limpa se comparada à energia gerada por combustíveis fósseis. Mas também tem o seu custo ecológico. Ela precisa dos minerais para a fabricação de baterias; e, em muitos casos, requer o abatimento de árvores para funcionar no teto das casas ou nos terrenos circunstantes. Eis a contradição. Ela destrói aquilo que, teoricamente, deveria proteger: a natureza, as árvores. Torna o ar-condicionado mais sustentável, pois emite menos CO2, mas elimina o ar-condicionado natural e infinitamente mais ecológico, que são as árvores. A energia solar é uma grande invenção, quando seus painéis são colocados em áreas já degradadas, utilizados como telhados para intermináveis e áridos estacionamentos (são centenas de milhares nos EUA) ou colocados no telhado de shopping centers. Mas não quando substituem as árvores.
A ignorância e a ganância nesses assuntos são enormes. E, finalmente, chego ao caso que queria contar. Há alguns anos, uma família mudou-se para uma propriedade pegada à nossa. Pai e mãe ainda jovens e uma filha pequena. Pouco tempo depois, começaram a derrubar árvores, incluindo dois belos, altos e saudáveis carvalhos em frente – e a uma boa distância – da casa. Estavam ali há setenta ou oitenta anos, desde antes que a casa fosse construída, contribuindo com a sombra, com a bicharada, com o meio ambiente. E com a beleza da área. Queixei-me com veemência. Tive conversas acaloradas com a mulher e com o marido. Cada vez, ouvia uma justificação diferente: os galhos podem cair, temos uma criança pequena, é perigoso; vamos plantar árvores frutíferas; mais cedo ou mais tarde, vamos colocar painéis solares no teto… Mas a desculpa mais cômica de todas foi “vamos plantar grama na frente de casa” – como se a grama substituísse os dois grandes carvalhos nos seus insubstituíveis serviços ecológicos! Mas o que sabem sobre isso? Quanto tempo dedicaram nas suas vidas à apreciação e à compreensão dos mecanismos e da importância da natureza?
Se há uma árvore que não corre risco de cair, se estiver saudável, é o carvalho. A criança não corria risco algum. As ávores frutíferas nunca foram plantadas. Os carvalhos derrubados não interferiam minimamente com a trajetória do sol, que, no seu caminho de leste a oeste, está do lado de trás da casa. Não faziam sombra alguma no telhado. Os painéis solares podiam ser instalados sem problemas. Na maior parte do tempo, o gramado está seco. No lugar dos carvalhos derrubados, apareceu uma redinha para se praticar softball – se os vizinhos foram vistos jogando softball mais de três ou quatro vezes, foi por milagre. No lugar das árvores derrubadas no terreno atrás da casa, apareceu um trampolim – raramente usado.
Tivemos, as árvores e nós, mais sorte com os vizinhos da propriedade do outro lado. O divertimento das crianças, ao invés de exigir a derrubada de árvores, foi assegurado no próprio bosque. O pai abriu uma trilha entre as árvores e colocou até mesmo uma pequena ponte de madeira para atravessar um riachinho intermitente, que se forma na primavera. As crianças perambulam por aí, recolhendo pedras, descobrindo curiosidades naturais, construindo abrigos com galhos mortos. Ou praticando “mountain bike” com as suas bicicletinhas. Familiarizando-se com a natureza, tornando-a parte da própria existência. Elas serão, sem dúvida, bons aliados do meio ambiente quando crescerem. Temo, porém, que sejam a exceção que confirma a regra.
